Notícia: Como a LGBTFobia e o bullying afetam os estudantes?

Como a LGBTFobia e o bullying afetam os estudantes?

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Pesquisa revela que agressões verbais e físicas contra alunos LGBTQIAPN+ viraram rotina em escolas brasileiras

mostra uma atividade em sala de aula. Em primeiro plano, uma estudante acompanha atentamente o que acontece à frente, enquanto outros alunos estão sentados e voltados para um quadro branco. Ao fundo, uma estudante escreve no quadro, aparentemente conduzindo ou apresentando uma atividade para a turma. Alguns alunos seguram cadernos ou folhas, indicando um momento de estudo, discussão ou trabalho coletivo.
Nove a cada dez estudantes foram vítimas de agressões verbais. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil.

A violência no ambiente escolar é uma realidade que se manifesta de muitas formas, atingindo especialmente meninas e mulheres, estudantes negros e jovens LBBTQIAPN+, como aponta dados da Pesquisa Nacional sobre o Bullying no Ambiente Educacional Brasileiro, publicada recentemente pela Aliança Nacional LGBTI+. Entre os estudantes LGBTQIAPN+, 86% disseram se sentir inseguros na instituição de ensino por causa de alguma característica sua. O percentual chega a 93% entre alunas e alunos transexuais.  

A pesquisa define o bullying como uma “intimidação sistemática, por meio de violência física ou simbólica, por meio de atos de intimidação, humilhação ou discriminação”. No entanto, os relatos apresentados na pesquisa mostram que essa violência ganha contornos ainda mais específicos e severos: a LGBTfobia, o preconceito, aversão ou ódio contra quem não se enquadra nos padrões tradicionais de gênero e sexualidade. 

De acordo com as respostas dos estudantes, a escola é considerada pouco ou nada segura para pessoas trans e travestis (67%), meninos que não seguem padrões rígidos de masculinidade (59%), jovens gays, lésbicas, bissexuais ou assexuais (49%) e meninas que fogem dos padrões de feminilidade (40%). Ou seja, quanto mais a identidade ou a aparência do estudante se distancia das expectativas sociais, maior é o risco de sofrer hostilidade no ambiente que deveria acolhê-lo. 

Só em 2024, nove em cada dez estudantes LGBTQIAPN+ entrevistados foram vítimas de agressões verbais. As ofensas miram prioritariamente a orientação sexual (83%) e a expressão de gênero (79%).

A violência, contudo, não para nas palavras: a agressão física atingiu 34% dos participantes no mesmo período, sendo ainda mais frequente entre jovens trans (38%) e pessoas negras (38%). Os estopins apontados foram a expressão de gênero (20%), a orientação sexual (20%) e a própria aparência física (19%).  

Essa hostilidade também se manifesta no corpo e no ambiente virtual. Pouco mais de um terço (34%) dos jovens relatou ter sofrido assédio sexual dentro da escola — com 5% enfrentando toques inapropriados e comentários invasivos de forma diária, semanal ou mensal. Além disso, o cyberbullying estendeu os muros da escola: 31% relataram ter sofrido intimidações e ameaças por redes sociais, telefone ou aplicativos de mensagem. 

De onde vem a violência? 

Se os colegas correspondem à maioria dos agressores citados (97%), o dado mais grave expõe o próprio ecossistema educacional: 35% dos estudantes apontaram docentes como autores de agressões. Gestores (16%) e demais funcionários da escola (10%) também foram mencionados.

Segundo o estudo, a presença ativa de educadores entre os agressores explicita que o problema não é mero despreparo, mas uma conivência institucional profunda. Ao naturalizar ofensas como "brincadeiras" ou participar ativamente delas, profissionais da educação chancelam a discriminação e legitimam a violência entre os próprios alunos. 

A solidão e o silêncio 

A escalada de violência reflete diretamente no isolamento e na evasão escolar. Apesar do suporte de familiares e amigos aparecer como um farol de resistência nas narrativas dos estudantes, a maioria ainda atravessa o trauma sem qualquer amparo. 

Entre os estudantes ouvidos, 62% disseram nunca ter conversado com ninguém sobre a agressão sofrida. Apenas 25% desabafaram "algumas vezes", enquanto uma minoria expressiva conseguiu buscar ajuda de forma recorrente (9%) ou permanente (6%). Entre os que quebraram o silêncio, os amigos representaram a principal rede de apoio (46%). 

Quando os estudantes decidem denunciar a violência à própria instituição, muitos encontram portas fechadas. Para 69% dos que buscaram ajuda de gestores, professores ou funcionários, nenhuma providência foi tomada. Mesmo nos raros casos em que a escola reagiu (31%), 86% dos estudantes avaliaram as medidas adotadas como ineficazes. O diagnóstico final é claro: mais do que omissa, a estrutura escolar brasileira tem falhado em garantir o direito básico de existir e aprender com dignidade.