Notícia: Dia Mundial da Alfabetização: mais de 8 milhões de brasileiros não sabem ler e escrever

Dia Mundial da Alfabetização: mais de 8 milhões de brasileiros não sabem ler e escrever

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Dados mostram avanço da escolarização, mas inclusão educacional ainda é desafio na infância e na vida adulta 

Fotografia em plano médio de três adultos sentados lado a lado em carteiras escolares. À esquerda, uma mulher sorri de camiseta vermelha. Ao centro, outra mulher sorri de camiseta branca, cabelos presos e caderno aberto. À direita, um homem de óculos e camiseta branca olha para baixo, atento. Ao fundo, uma parede amarela e vermelha com cartazes educativos. Iluminação clara e focada.
Professora Daiana Jardim (centro) com estudantes da Escola de EJA da Fundação Roberto Marinho. Foto: Amanda Nunes.

Celebrado em 8 de setembro, o Dia Mundial da Alfabetização foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) há quase 60 anos com um propósito muito claro: defender a importância do domínio da leitura e da escrita para o desenvolvimento humano. Na época, o acesso à educação no Brasil era realidade para uma minoria.  

Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), podem ser consideradas alfabetizadas as pessoas capazes de ler pequenos textos, compreender informações básicas e interpretar o conteúdo. Na escrita, mesmo com desvios ortográficos, os que conseguem produzir textos simples para comunicação cotidiana, como convites ou lembretes. 

O debate sobre alfabetização não se restringe a infância. Por diversos motivos, muitas pessoas deixam de frequentar a escola e chegam à vida adulta sem acessar esse direito fundamental. Os dados da Pnad Contínua do IBGE, mostram que em 2025, 8,4 milhões de brasileiros com 15 anos ou mais não sabiam ler e escrever. O número representava 4,9% da população nessa faixa etária. 

“Eu tive um aluno que toda vez que a turma estava fazendo a leitura de um texto, ele saía de sala”, conta a professora Daiana Jardim, da escola de Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Fundação Roberto Marinho. Quando conversou com o jovem, na época com 20 anos, Daiana percebeu que ele não sabia ler nem escrever. “Ele queria aprender, e a gente trabalhou junto para fazer isso acontecer”, relata. 

O estudante concluiu o ensino fundamental e segue na escola em busca do diploma do ensino médio. “Ele contava que, depois de aprender a ler, conseguiu até paquerar melhor. Antes, só podia enviar áudio e disse que se sentiu muito importante quando começou a escrever as mensagens. Outra coisa que ele conquistou foi a carteira de habilitação, algo que antes achava impossível, porque não conseguiria ler a prova”, lembra a professora. 

“Quando a gente fala da alfabetização de adultos, muitas vezes focamos nas coisas práticas, como fazer uma lista de compras ou pegar um transporte. Isso é importante, mas saber ler e escrever também impacta a autoestima, a convivência e a sociabilidade de modo geral. Isso pode significar ler a Bíblia, paquerar ou estar em um espaço e entender o teor das conversas", completa.

Aspas

Alfabetização não é apenas decodificar palavras, é um processo de empoderamento no mundo.

Daiana Jardim, professora da EJA

Aspas

Como destaca a professora, a alfabetização é um passo fundamental para o acesso a direitos e para o exercício pleno da cidadania. Por isso, o analfabetismo é compreendido como uma violação que antecede a negação de outros direitos. 

Conheça a escola de Educação de Jovens e Adultos da Fundação Roberto Marinho

O estudo Demanda Potencial por EJA e Transição para o Trabalho, publicado este ano pela Rede EJA e Inclusão Produtiva, reforça a compreensão sobre a relação entre escolaridade, inclusão produtiva e trabalho. Pessoas com menos escolarização enfrentam mais dificuldades para ingressar no mercado de trabalho. Quanto menor a escolaridade, maior a informalidade, menores os salários e mais exaustivas são as atividades laborais. 

O Analfabetismo  

A persistência do analfabetismo entre jovens, adultos e idosos brasileiros reforça a necessidade de políticas públicas que garantam o direito à educação também na vida adulta. 

Mais da metade dos 8,4 milhões de brasileiros não alfabetizados - 4,9 milhões de pessoas – tem mais de 60 anos. São idosos que não puderam aprender a ler e escrever quando crianças e que viveram boa parte da vida sem acessar esse direito. 

O Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado para o decênio 2026-2036, traz pela primeira vez um objetivo específico (objetivo 11) para a EJA. O texto fala em “assegurar a alfabetização e ampliar a conclusão da educação básica para todos os jovens, adultos e idosos”.  

A primeira meta desse objetivo é aumentar a taxa de alfabetização da população com 15 (quinze) anos ou mais para 97% até 2031 e superar o analfabetismo até o final do decênio, em 2036. Hoje, o índice de alfabetismo nessa faixa etária no Brasil está em 95,1%, conforme dados da Pnad Contínua do IBGE.  

Criança alfabetizada 

O terceiro objetivo do PNE visa “assegurar a alfabetização ao final do 2º segundo ano do ensino fundamental para todas as crianças”, reforçando as ações previstas pelo Compromisso Nacional Criança Alfabetizada, pacto lançado em 2023, que virou lei no ano passado (15.247/2025).  

Entre 2023 e 2025, o número de crianças alfabetizadas até o final do 2º ano cresceu 10%, superando a meta de alfabetização estabelecida para 2025, com 66% das crianças alfabetizadas na etapa. Os dados são do Indicador Criança Alfabetizada, do Ministério da Educação (MEC).  

Mas, apesar dos avanços, o alerta permanece aceso, porque milhares de alunos continuam a trajetória escolar acumulando defasagens de aprendizagem que prejudicam a compreensão de outras disciplinas e aumentam os riscos de evasão escolar no futuro.  

Ainda há um contingente expressivo de alunos (34%) que concluem o 2º ano sem estarem alfabetizados. De acordo com o Todos pela Educação, “isso reforça a urgência de estratégias de recomposição de aprendizagens, para evitar que essas defasagens se perpetuem ao longo das trajetórias escolares”. Além disso, a organização ressalta que o nível considerado como alfabetização no país ainda é inicial, o que coloca como próximo passo qualificar a aprendizagem.