Notícia: Como identificar e prevenir violências contra crianças e adolescentes facilitadas pela internet

Como identificar e prevenir violências contra crianças e adolescentes facilitadas pela internet

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Supervisão de responsáveis, diálogo e respeito às regras de uso das plataformas digitais são fundamentais para reduzir riscos online 

A imagem mostra uma pessoa de costas numa estação de jogos. A pessoa de cabelo castanho comprido e ondulado, a vestir uma t-shirt roxa, sentada numa cadeira gamer preta. Tem a mão direita sobre o mouse de computador.
Famílias devem supervisionar o acesso de crianças à internet. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil.

Desenhar, brincar, ler e dançar. Os verbos que às vezes parecem distantes da infância da atual geração, marcada pelo uso excessivo de telas, ainda caracterizam a rotina de Valentina Nunes, de 10 anos. “Na escola perguntavam para mim se eu tinha celular e ficavam surpresos quando eu dizia que não”, conta a menina, que ganhou o primeiro celular no aniversário, há cerca de um mês. O aparelho veio acompanhado de muita conversa com a mãe, algumas regras e ferramentas de controle parental.  

Longe de achar isso um problema, Valentina entende que isso é importante. “A internet tem muita coisa perigosa para criança, conteúdo que não é muito apropriado para mim”. Aluna do quarto ano da Escola Municipal Paulo Duarte, na Zona Leste de São Paulo, ela conta que a professora também fala sobre isso em sala de aula. 

“Eu relutei para dar o celular a ela”, ressalta a mãe de Valentina, Leilane Alves. Apesar da filha não pedir, ela percebeu que era algo importante para as atividades na escola e para facilitar a comunicação entre elas quando a menina não está em casa. Antes de comprar o aparelho, Leilane procurou saber sobre as ferramentas de controle parental e descobriu um aplicativo gratuito que controla o tempo de tela. “Tem um horário pré-definido que desliga tudo e só volta a conectar no dia seguinte, no horário programado”, explica.  

Para Leilane ferramentas como essa ajudam na supervisão, mas não substituem a conversa e confiança construídas no dia a dia. “Falo sempre para ela não se sentir com medo de contar as coisas que acontecem, repito que ela pode se sentir confortável em conversar comigo”.  

Muita conversa e ferramentas de proteção 

“Às vezes a gente olha uma mensagem e não acha nada demais, mas tem um emoji ou uma palavra que, no contexto deles, tem outro significado. São códigos muito particulares da geração, então mesmo com a supervisão pode ser difícil identificar. Por isso, uma relação pautada no diálogo é fundamental”, avalia Priscila Pereira, coordenadora do Crescer sem Violência, iniciativa do Canal Futura que há quase duas décadas atua na prevenção e enfrentamento às violências contra crianças e adolescentes.  

Além da atuação profissional, Priscila também é mãe de uma adolescente de 13 anos. Para ela, três estratégias podem ajudar a reduzir os riscos online: primeiro, a conversa com a criança e/ou adolescente; o uso combinado de ferramentas de controle parental. E, por fim, o respeito às regras de uso, especialmente à idade mínima, de cada rede social.  

Para criar um perfil em plataformas como Instagram e TikTok é necessário ter, no mínimo, 13 anos. A segurança digital de crianças e adolescentes nas redes sociais ganhou força com a implementação do ECA Digital, em março. A medida obriga as empresas a adotarem mecanismos reais de verificação de idade, pondo fim à antiga autodeclaração, que dependia de um simples clique na opção “tenho mais de 18 anos”. 

O ECA Digital avançou ao estabelecer que contas de crianças e adolescentes com menos de 16 anos sejam, obrigatoriamente, vinculadas ao perfil de um responsável. Mais do que uma ferramenta de vigilância, a medida cria recursos práticos de proteção: permite barrar o contato de adultos não autorizados, frear o design que estimula o uso excessivo, ajustar os algoritmos de recomendação e restringir o compartilhamento de localização. 

Em casa, Priscila usa três ferramentas complementares de mediação parental. O primeiro é um aplicativo para gerenciar o tempo de tela. “É uma questão de saúde socioemocional. Se para o adulto já é difícil administrar esse tempo de rolagem, para uma criança ou adolescente ter esse controle é muito mais difícil”, explica. 

Outro recurso adotado é um aplicativo chamado Qustodio, que acompanha o conteúdo acessado e envia alertas aos responsáveis em caso de vulnerabilidade. O sistema rastreia conversas ou pesquisas potencialmente sensíveis e sinaliza apenas essas ocorrências para a família. Ao mapear o tipo de risco — como episódios de assédio, menções a álcool e drogas ou cyberbullying —, a plataforma classifica a gravidade da ameaça como alta ou baixa.  

O terceiro recurso é um aplicativo de compartilhamento contínuo de geolocalização. Priscila explica que o sistema lembra o envio de localização do WhatsApp, mas com uma diferença essencial: ele opera de maneira ininterrupta e em tempo real, dispensando o acionamento manual pela filha a cada novo deslocamento. 

Violências facilitadas pela tecnologia 

A tecnologia pode ser uma facilitadora da violência contra crianças e adolescentes. Essa visão rompe com a falsa separação entre os ambientes digital e físico, reconhecendo que a internet também é "vida real". Na prática, isso significa que as violações assumem múltiplas formas: podem ocorrer de modo exclusivamente virtual, misturar interações online e presenciais ou, ainda, acontecer no plano físico e usar as redes apenas como ferramenta para registrar e divulgar as agressões. 

Guilherme Alves é gerente de projetos da Safernet Brasil, instituição que atua na promoção e defesa dos direitos humanos na internet. Ele explica que os riscos online podem ser compreendidos a partir de um esquema de quatro C’s.  

O primeiro “C” é de conteúdo. Ele engloba os danos decorrentes da exposição a conteúdos impróprios, que vão desde a apologia à violência e à pornografia até o discurso de ódio.  

O segundo "C" se refere ao contato. Trata-se da vulnerabilidade gerada por interações diretas com desconhecidos ou, até mesmo, com pessoas do próprio convívio. Essa comunicação sem supervisão é a principal porta de entrada para situações de risco, como aliciamento, chantagem e compartilhamento não consensual de imagens íntimas.  

O terceiro “C” é de conduta. “Esse eixo diz respeito ao comportamento da própria criança ou adolescente, e aos riscos que essas atitudes podem representar para a sua segurança ou dos colegas. O cyberbullying é o exemplo mais comum, mas também acompanhamos casos mais graves, que chegam à violência sexual”, detalha Guilherme.  

Por fim, há o "C" de contrato, que chama atenção ao modelo de negócio das plataformas digitais. Ele abarca como os próprios termos de uso das big techs ameaçam a proteção de dados pessoais, a privacidade e, sobretudo, a segurança socioemocional de um público ainda em desenvolvimento. 

Segundo Guilherme, a maior parte das denúncias recebidas pela Safernet hoje estão relacionadas a abuso sexual infantil, questões de saúde mental e casos de violência de gênero.  

Em apenas um ano, um a cada cinco adolescentes, entre 12 e 17 anos, (19%) sofreu exploração ou abuso sexual facilitado pela tecnologia no país. Isso representa cerca de 3 milhões de meninas e meninos atingidos pela violência no ambiente digital. A informação está no relatório ‘Disrupting Harm in Brazil: Enfrentando a violência sexual contra crianças facilitada pela tecnologia’, publicado esse ano pelo UNICEF. 

Com o avanço da inteligência artificial (IA), essas violações ganharam novos contornos por meio da manipulação e da criação de imagens falsas que sexualizam meninas e meninos. “Temos visto materiais gerados por IA, conteúdos ultrarrealistas que podem ou não usar o rosto de uma criança de verdade. Hoje existe todo um mercado paralelo ao redor desses conteúdos sintéticos”, explica Guilherme. 

O especialista relata, ainda, que a criação e o compartilhamento de deep nudes — imagens íntimas fabricadas com IA — têm sido cada vez mais recorrentes nas escolas e, na maior parte das vezes, tem as meninas como alvos, escancarando o recorte de gênero e a misoginia que estruturam essas violências. 

Iniciativas e materiais para conhecer 

O Crescer sem Violência disponibiliza um acervo voltado a professores, famílias e profissionais da assistência social. Qualquer pessoa pode acessar os cursos, materiais pedagógicos e peças de comunicação do projeto, gratuitamente.  

Entre as formações disponíveis, Priscila destaca o curso ‘Educar para proteger, proteger para garantir direitos’, que capacita os adultos para identificar sinais de risco, acolher de forma adequada e formalizar denúncias, além de traçar estratégias preventivas. Outras formações sobre o assunto também estão disponíveis gratuitamente.  

Já a Safernet disponibiliza um canal de denúncia, onde qualquer pessoa pode reportar, de forma anônima, conteúdos considerados nocivos na internet. Essas denúncias são verificadas e encaminhadas pela própria instituição aos órgãos públicos responsáveis. 

A organização conta, ainda, com um canal de ajuda, um serviço gratuito de orientação e acolhimento para pessoas que sofreram alguma violência no ambiente digital. Não é necessário se identificar para buscar apoio na plataforma. 

A imagem apresenta uma ilustração animada em 2D de estilo colagem/texturizado, mostrando duas personagens num quarto estilizado:
Segunda temporada de Que Corpo é esse? aborda violências online. Foto: Reprodução.

A produção audiovisual é uma das frentes de ação do Crescer sem Violência. De forma lúdica e responsável, a série ‘Que corpo é esse?’ aborda a proteção e o autocuidado de crianças e adolescentes. A segunda temporada é inteiramente dedicada às violências online e está disponível gratuitamente no Globoplay. Produzida em formato de animação, a classificação indicativa é livre. 

“Nos próximos meses, vamos lançar uma série nova. ‘Que exploração é essa?’ vai trazer essa abordagem das novas formas de aliciamento de meninas e meninos mediadas pela tecnologia”, antecipa Priscila. A produção tem estreia prevista para o primeiro trimestre de 2027, no Canal Futura. 

Para ela, é fundamental que famílias e responsáveis assumam um papel ativo nessa rede de cuidado, buscando orientação em instituições com atuação reconhecida. Além do Crescer sem Violência e da Safernet, organizações como a Childhood Brasil e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) também são referências no enfrentamento a essas violações. 

“Eu sei que muitas vezes as crianças não têm a supervisão do adulto, e é importante ter um responsável acompanhando o que a criança está assistindo, se alguém está conversando com ela, as pesquisas que ela está fazendo na internet. Porque, em caso de perigo, o adulto vai saber o que está acontecendo”, alerta Valentina.