Artigo: Protagonismo Juvenil e Educação Transformadora

Protagonismo Juvenil e Educação Transformadora

É possível um mundo em que pessoas se reconhecem transformadoras? Que seja construído pensando na coletividade? Vou deixar que você reflita sobre as perguntas no transcorrer desta conversa.

Vamos começar com a ideia de protagonismo. Para algumas pessoas, a palavra é corriqueira, pois já estão acostumadas a agir diante de situações que requerem sua participação. Para outros, protagonismo pode ser um conceito vazio ou sem significado. Há ainda os que acreditam que protagonistas são aquelas pessoas que apenas querem se destacar. Mas, a ideia tão presente nas falas de muitas instituições de ensino e educadores, ainda não toca e mobiliza todos os jovens estudantes. Percebo isso quando desenvolvo projetos na Cordel, um negócio de impacto social que fundei com outros colegas do ensino médio, em Recife, onde estudei. A Cordel utiliza tecnologia e gamificação para estimular o engajamento dos estudantes com causas sociais. 

Para nós, a Cordel é uma oportunidade de criar espaço para que as pessoas se reconheçam enquanto protagonistas. Uma vez descoberto o sentido dessa palavra na prática, destrava-se um grande potencial nos jovens, formando líderes para o hoje e o amanhã, que materializam suas ideias em ações que impactam positivamente a comunidade onde vivem. 

Identifico a escola como sendo o ambiente catalisador desse protagonismo juvenil, isso porque ela é nosso primeiro grande laboratório de experimentação e não tem como estimular que pessoas criativas se desenvolvam sem esse lugar de construção e diálogo. É na escola que passamos boa parte de nossa infância e juventude. Então, a jornada de descobertas na escola precisa ser intencional e bem aproveitada. 

Em um ambiente de experimentação, há espaço para o erro. Identificar que a comunidade escolar é predominantemente constituída por pessoas é o primeiro passo, assim como compreender as subjetividades e o contexto em que se dá a história de cada sujeito, e por isso errar também deve ser celebrado! Não porque errar é bom, mas porque é possível extrair aprendizados e ressignificar as decisões que foram tomadas equivocadamente. Assim também se vai construindo o protagonismo juvenil.

Desencorajar o medo de errar pode retirar um grande peso dos jovens. Isso porque cultivamos ali, na escola, um espaço de confiança e segurança. Esse é o valor que carrego comigo sempre que tenho a oportunidade de compartilhar as experiências da Cordel Brasil afora. Experimentei momentos de dificuldades na infância e juventude, que geraram traumas na minha jornada de desenvolvimento enquanto um jovem protagonista. O erro não era visto como oportunidade de desenvolvimento, mas como fraqueza!

Então agora, por meio daquilo que produzimos na Cordel, defendemos a necessidade de um lugar onde aprender a aprender é o lema. Pelas secretarias de educação e escolas com as quais trabalhamos, fazemos questão de afirmar: sem relacionamentos fortes entre educando e educador, que sejam pautados no respeito e colaboração mútua, não teremos pessoas confiantes em si mesmas e nos outros e, consequentemente, não teremos cidadãos que protagonizam transformações sociais. A equipe da Cordel fala de um lugar de egressos da escola pública. Desde o ensino infantil, enfrentamos os mais variados desafios inerentes a ela.

Educação transformadora é mais que um conceito, é uma prática que desencadeia em um movimento de pessoas que transformam. Para que ela seja experimentada, é preciso romper com a mentalidade da escola apenas como formadora, responsável por um modelo de ensino feito para treinar profissionais. O produto da educação transformadora são indivíduos e sociedades plurais, com habilidades para participar e criar soluções na política, economia, sociedade e cultura. 

Despertar o potencial protagonista das juventudes pode não ser tarefa fácil. Urge uma grande reforma nos métodos de ensino, com mais estímulo para a convivência que gere, em primeiro lugar, liberdade e autonomia no processo de aprendizagem. Em segundo lugar, exercite o pensamento crítico, para que se possa processar um turbilhão de informações ao qual todos somos expostos e, assim, formar opinião própria, com base em valores éticos. Em terceiro lugar, que contribua com a capacidade dos jovens de inovar, de forma que possam desenvolver soluções, levando em conta suas histórias e repertórios culturais, com confiança para conquistar espaços onde quer que estejam. E, por fim, os métodos de ensino precisam despertar a consciência, consciência de si mesmos, para então criar condições de solucionar os problemas emergentes, lidando com as mudanças estruturais que exige nosso tempo. 

Cada sistema de ensino, cada escola, cada grupo de jovens pode começar usando os recursos que já têm para operar essa mudança. Sempre se tem algo valioso! Na Cordel, usamos a ludicidade para comunicar com os educadores e estudantes, de forma que eles se sintam motivados a aprender a serem protagonistas. Os jogos já estão no dia a dia dos jovens! Então, nosso principal objetivo enquanto construímos nossas soluções não é transformar nossos estudantes em gamers, mas transformar os gamers em estudantes.

No final das contas, queremos permitir que a jornada de descobertas de cada estudante ocorra em sua plenitude. A educação transformadora possibilita a construção de uma identidade transformadora. Ela se utiliza das interações, reflexões e participação comunitária para estimular o desenvolvimento de cidadãos com participação ativa na sociedade. E isso ficou ainda mais claro pra mim quando visitei regiões rurais, no estado do Mato Grosso. Saindo de Recife, capital com os mais variados acessos a recursos, me vi em um lugar remoto, sem tantos dispositivos e fluxos de informações. Contudo, lá os educadores estavam muito dispostos a envolver toda a comunidade escolar no acolhimento dos jovens - para estimular que fossem incluídos na co-construção da aprendizagem e para que brotassem novas ideias para os problemas que enfrentam em seu cotidiano: um celeiro de criatividade!

A educação transformadora gera um ecossistema de educandos e educadores que propagam o protagonismo, que estimula a colaboração e dissemina boas práticas para que mais pessoas sejam contempladas. Uma vez que esse ecossistema começa a crescer, o círculo virtuoso só vai se expandindo. É isso que meus colegas de time e eu temos procurado fazer: criar novas células de educação transformadora para que elas possam se fortalecer e proliferar pelo bem de todos os jovens. E você, como está contribuindo com essa nova história?

Vinnicius Rodrigo é Jovem Transformador Ashoka e co-fundador da startup Cordel

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