Quatro décadas, milhares de histórias: NAC e o poder de democratizar a arte
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Fundado em 1987, o Núcleo de Artes Cênicas (NAC) do SESI-SP oferece cursos gratuitos de teatro. Este ano, as alunas integram o elenco de Lia Lia, com Camila Pitanga e Bete Coelho

Para muita gente, o teatro parece algo distante, uma experiência cara, restrita, que pertence a outro mundo. O Núcleo de Artes Cênicas (NAC) do SESI-SP existe para mudar essa ideia. Há quase quatro décadas, o NAC leva o teatro de forma gratuita a quem nunca teve acesso a ele.
Sem exigência de experiência anterior e sem limite de idade para fazer as aulas, o NAC se tornou, para milhares de pessoas, o primeiro contato com a arte, seja no palco ou na plateia.
Agora, às vésperas de completar 40 anos em 2027, chega a hora de celebrar. E o presente não poderia ser mais especial: as alunas do projeto integram o elenco de Lia Lia, espetáculo protagonizado pelas atrizes Bete Coelho e Camila Pitanga, em temporada pelos Centros Culturais do SESI-SP pelo estado.
"O NAC desenvolve o acesso à cultura e ao teatro de forma gratuita. É uma iniciação, o primeiro contato de muitas pessoas que nunca tinham consumido arte", explica Elis Ramos Genro, Analista de Atividades Culturais do SESI-SP.
O que é o Núcleo de Artes Cênicas do SESI-SP?

O NAC oferece cursos livres e gratuitos de teatro para crianças a partir de 8 anos, adolescentes e adultos. São 31 núcleos espalhados pela capital e pelo interior do estado de São Paulo, dentro das unidades do SESI-SP. Os cursos são destinados a alunos da rede escolar SESI, filhos e trabalhadores da indústria, bem como ao público do entorno.
"O teatro é um potencializador para a própria vida, para a identidade de cada um e para a construção coletiva", resume Elis.
O que o teatro forma além do ator?
A proposta do NAC vai muito além de ensinar técnicas de atuação. Nas aulas, os alunos trabalham corpo, palavra, expressão, criatividade e imaginação. Mas o que atravessa tudo isso é algo mais difícil de nomear: o senso de pertencimento ao coletivo.
"A gente busca que os núcleos sejam mediadores de processos. Existe o desejo pela encenação final, claro, mas para além disso são processos de sensibilização do indivíduo consigo mesmo e com os outros", diz Elis.

O percurso começa pelo módulo de iniciação teatral e, para quem quer aprofundar, avança para o módulo de encenação com apresentações dentro e fora das unidades do SESI-SP, em escolas, espaços públicos e instituições parceiras. Ao final de cada ano, o projeto Cena Livre reúne alunos de diferentes cidades para apresentações coletivas, onde as equipes assistem umas às outras.
O NAC reúne mais de 70 premiações em diversas categorias, incluindo importantes festivais de dramaturgia nacionais, como o Conservatório de Tatuí em que a aluna Vitória Ongaratto recebeu menção honrosa no 5º Concurso Estudantil de Dramaturgia.
Além do reconhecimento, o núcleo abre caminhos que os próprios alunos não imaginavam percorrer. Alguns seguiram para faculdades de artes cênicas e pós-graduações em dramaturgia. Outros, tornaram-se instrutores e formadores culturais dentro do próprio projeto.
Gabriele Clemente, aluna do NAC há um ano, acredita que ter um espaço dedicado à experimentação artística e acessar um teatro equipado é inspirador:
“Ter a oportunidade de aprender com profissionais que respeitam, valorizam e vivenciam o teatro com sensibilidade é algo singular. Ao longo da minha trajetória no NAC venho colecionando experiências no palco, aprendizados, trocas e memórias que certamente já marcaram minha vida e minha formação artística”, ressalta Gabriele.
Por que democratizar o acesso à cultura importa?
Teatro, dança, música, circo: nem todo mundo cresce com acesso a essas linguagens. O NAC funciona também como formador de público, ao apresentar os resultados do semestre para comunidades e familiares, aproxima pessoas que talvez nunca tivessem entrado num teatro e desperta nelas o desejo de ingressar.
Para Elis, o papel do NAC é justamente esse: ser um convite para que pessoas de diferentes origens e contextos possam experimentar e viver a arte.
"Fazer teatro mobiliza outras formas de se olhar o mundo, de movimentar aquilo que a gente gostaria que mudasse", afirma ela.
Não existe no Brasil um projeto com o mesmo tempo de formação e a mesma continuidade que o NAC. "Quarenta anos atuando nos mais diversos formatos, sem recorte de faixa etária, é algo único no país", destaca.
40 anos e um presente: alunas do NAC no elenco de Lia Lia
Às vésperas de celebrar quatro décadas de história, o NAC recebeu um presente especial: a parceria com o espetáculo Lia Lia, protagonizado pelas atrizes Bete Coelho e Camila Pitanga.
“Bete Coelho dividiu não apenas o palco com a gente, mas também seu olhar maravilhoso de diretora. Camila Pitanga, me fez perceber que seremos sempre uma eterna criança sorridente fazendo o que amamos, num lugar que nos faz feliz como o palco é para nós artistas”, relata Vitória Ongaratto, aluna do NAC que integra a peça Lia Lia.

Lia Lia reúne pela primeira vez no palco as duas gigantes. Com dramaturgia de Caetano W. Galindo e direção de Gabriel Fernandes, o espetáculo é uma produção da Teatrofilme e adapta o romance Lia (2024) em cenas independentes que compõem a vida de uma personagem em mosaico.
A cada cidade da temporada, duas alunas do NAC integram o coro cênico da montagem, um recurso dramatúrgico escolhido pelos diretores que amplia a dimensão simbólica da narrativa.
"A parceria com o NAC tem sido reveladora e fecunda. São encontros com artistas em formação e outros mais experientes, em que se pratica intensamente a produção, estética e linguagem cênica ao mesmo tempo em que absorvemos contribuições valiosas para a evolução da peça" , afirma Bete Coelho.
O espetáculo já passou pelos Centros Culturais do SESI-SP de Sorocaba, Ribeirão Preto, Itapetininga e São José dos Campos.
Lia Lia segue em temporada em:
- Rio Claro (02 a 14/06)
- Campinas (07 a 19/07)
- São Paulo (21/07 a 09/08) no Teatro do SESI-SP (Centro Cultural FIESP)
Para Elis, a parceria é muito mais do que uma celebração institucional.
"O NAC já significa muita coisa por si só. Ver isso crescer e tomar esse tamanho é o resultado da força de muitas mãos, é uma semente que, se a gente cuida, a gente consegue germinar. Muitas mãos fizeram esse cuidado ao longo dos 40 anos", reflete.
Como participar do NAC?
Os cursos do Núcleo de Artes Cênicas são gratuitos e abertos à comunidade. Para participar, basta procurar a unidade do SESI-SP mais próxima e verificar a grade de aulas e programação diretamente na secretaria.
Além das aulas, as unidades oferecem espetáculos de dança, música e teatro abertos ao público, uma forma de começar essa aproximação com a arte mesmo antes de entrar para uma turma.
Quatro décadas de NAC mostram que acesso à cultura não é privilégio. É um direito e quando ele se realiza, transforma não só quem está em cena, mas todos ao redor.
