Artigo: Enfrentamento é melhor que superproteção no mundo digital

Enfrentamento é melhor que superproteção no mundo digital

Você não leu errado; o título desse artigo pode soar mesmo desagradável. Mas o que as notórias pesquisadoras das relações de jovens e adolescentes com o mundo online, Joyce Vissenberg, Leen d’Haenens e Sonia Livingstone, trazem de novo são evidências científicas que, apesar de corroborarem com a defesa da educação para as mídias, apontam um caminho surpreendente com relação ao tema. 

Parece mais contraditório ainda o fato que a pesquisa foi publicada na mesma semana em que médicos no Brasil alertam para a influência das redes sociais – a pressão sobre a aparência e o uso de hashtags específicas – , no desenvolvimento de bulimia, anorexia e outros distúrbios alimentares.  

 Em um recém-publicado artigo na revista científica European Psychologist on Digital Revolution, as pesquisadoras da London School of Economics comparam trinta estudos empíricos sobre e relação entre jovens e internet, com objetivo de sintetizar as principais e mais recentes conclusões sobre o bem-estar e a proteção dos usuários contra danos online.

 Os resultados são surpreendentes. Há uma relação direta entre o risco e o bem-estar. Em outras palavras, a exposição e o subsequente enfrentamento a um “ciberbullying”, por exemplo, é mais eficiente para gerar resiliência do que a “superproteção” online – que se aproxima da proibição o uso.

 As pesquisadoras evidenciam, entretanto, que qualquer exposição negativa na internet é extremamente prejudicial ao bem-estar dos jovens e não defendem um uso desregrado da rede. O fato novo é que a exposição moderada ao risco pode ser encarada como um tipo de “educação digital”, em muitas medidas mais eficaz do que a proibição.  Talvez, a mais eficiente delas, por gerar, como consequência, desenvolvimento e habilidades sólidas para um enfrentamento diário de situações na internet.

Uma pessoa segura um tablet com as duas mãos. Seu rosto não aparece na foto.

Ações preventivas de educação digital também foram analisadas e colocadas como importantes – entretanto com evidências mais fracas se comparadas ao “enfrentamento”. Segundo a pesquisa, a alfabetização digital não protege diretamente os jovens dos riscos online, mas sim nos resultados prejudiciais, apoiando o enfrentamento.

Como toda pesquisa, não há resultados definitivos. Mas o trio de pesquisadoras promete se aprofundar nas conexões entre a resiliência online, a alfabetização digital e os riscos, para orientar políticas públicas mais efetivas no combate aos crimes digitais, sobretudo contra crianças e jovens. Sonia Livingstone, particularmente, é ativa na estrutura de leis de ciberproteção no Reino Unido, incluindo aquela que, há dois anos, ampliou todos os direitos adquiridos por jovens e crianças no mundo físico para o online; ou seja, um crime na internet tem a mesma gravidade de um cometido as ruas, em casa ou na escola. 

Os resultados dessa pesquisa podem soar “indigestos” para aqueles que tem um perfil mais protetor, mas não há como ir contra fatos científicos sem outras evidências nas mãos. Resultados conclusivos estão longe de serem obtidos; o que podemos imaginar é que temos muito o que compreender como aperfeiçoar e melhorar a educação – e os mecanismos de proteção – de jovens e adolescentes com relação a internet.

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