Notícia: Projeto VOA conclui primeira fase de formação para 200 empreendedores da Zona Portuária do Rio

Projeto VOA conclui primeira fase de formação para 200 empreendedores da Zona Portuária do Rio

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Iniciativa da Fundação Roberto Marinho, Instituto Cury e ESPM promoveu mais de 50 horas de formação; agora, fase de aceleração vai selecionar 20 projetos, com inscrições até 24 de agosto  

A imagem mostra uma atividade em formato de roda de conversa ou plenária, realizada em uma sala de eventos ou treinamento.  No centro da cena, um homem em pé faz uma intervenção, aparentemente compartilhando uma pergunta, comentário ou relato com os demais participantes. Ele gesticula com as mãos enquanto fala, e todos ao seu redor direcionam a atenção para ele. Ao fundo, outras pessoas acompanham a fala de forma atenta.  O público é numeroso e diverso, reunindo homens e mulheres de diferentes idades.
Aulão final do projeto VOA aconteceu no Museu de Arte do Rio. Foto: Jaqueline Suarez

O Museu de Arte do Rio (MAR) foi palco, no último sábado (25), do encerramento da primeira fase do projeto VOA – Sua vez é agora, iniciativa voltada a moradores e empreendedores da Zona Portuária do Rio de Janeiro. Com mais de 200 inscritos e 50 horas de formação, a jornada promoveu o fortalecimento de competências empreendedoras e ofereceu mentorias para potencializar pequenos negócios e projetos sociais do território. 

Fruto da parceria entre a Fundação Roberto Marinho, por meio da co.liga, o Instituto Cury e a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), o objetivo do VOA é impulsionar o desenvolvimento social e econômico da região por meio do empreendedorismo.  

O marketing digital foi o tema central do encontro, abordado a partir da realidade e das especificidades do território. Segundo o professor Jean Falcão, da ESPM, a proposta foi conectar os conceitos diretamente aos desafios cotidianos dos projetos. 

“Debatemos o comportamento do público, a relevância de escutar a comunidade e as formas de alinhar a proposta de valor de cada negócio às necessidades reais dos clientes. Na parte da tarde, os participantes colocaram a mão na massa para que pudessem, já no início da semana, aplicar essas estratégias no dia a dia de seus empreendimentos”, explicou Falcão. 

Na ocasião, também foi anunciada a segunda fase do programa, que selecionará 20 empreendimentos para um processo de aceleração focado no suporte técnico e sustentabilidade financeira, por meio de mentorias individuais e coletivas. Os interessados têm até o dia 24 de agosto para submeter suas propostas. O resultado da segunda fase do VOA – Sua vez é agora será anunciado até 31 de agosto.  

“Encerramos essa primeira fase muito felizes com a troca e o conhecimento construído. Foram conteúdos práticos, com aplicação direta, que deixam um legado real para todos os participantes. Mesmo quem não seguir para a etapa seguinte já conta com ferramentas, repertório e redes de apoio para impulsionar seus negócios. O fortalecimento dos vínculos locais e do networking foi um dos maiores ganhos: eles saem preparados para colaborar e crescer juntos”, avalia Alzira Silva, supervisora de Inclusão Produtiva da Fundação Roberto Marinho. 

Ela explica também que a trajetória percorrida permite que os participantes submetam propostas mais estruturadas para a nova etapa, sistematizando o aprendizado acumulado.

Fotografia de uma entrevista sendo gravada em um espaço aberto com vista para prédios ao fundo. À esquerda, uma mulher de cabelos cacheados, óculos e vestido azul-marinho fala enquanto gesticula com as mãos, demonstrando expressão atenta e envolvida. Ao seu lado, outra mulher sorri e acompanha a conversa. Ela veste uma camiseta azul-marinho com a palavra "Educação" em destaque e a identidade visual da Fundação Roberto Marinho, além de colar e brincos coloridos.
Da esquerda para direita: Roseane Cruz e Alzira Silva. Foto: Jaqueline Suarez.

“Nessa turma, há desde empreendimentos estruturados até iniciativas em fase de planejamento, prestes a sair do papel. Independentemente do estágio de cada projeto, é visível pela fala dos participantes, o quanto as ideias se fortaleceram. A expectativa é alta para conhecer os 20 negócios selecionados”, destaca Roseane Cruz, da área de Responsabilidade Social do Instituto Cury. 

“A Zona Portuária vive um momento de transformação e chegada de novos moradores. Trata-se de uma oportunidade estratégica para os empreendedores locais mapearem demandas, ocuparem lacunas do mercado e demonstrarem a força de seus serviços para esse novo público”, completa Roseane Cruz. 

As experiências de Voo 

“A formação trouxe conhecimentos fundamentais para eu implementar na minha marca, desde a gestão da empresa até a forma de me comunicar com o meu público”, avalia Gabrielle Ribeiro, de 31 anos. Moradora do Morro do Pinto, onde vive e trabalha, Gabrielle viu no VOA – Sua vez é agora o impulso necessário para expandir a produção e ampliar as vendas. 

Ela é fundadora de uma marca de moda inclusiva e diversificada. A ideia de empreender surgiu da sua própria vivência como mulher alta e de conversas com uma amiga modelo plus size, ao perceberem a escassez de opções no mercado. Hoje, o negócio de Gabrielle opera no ambiente digital e conta com um espaço físico dentro de um centro cultural no seu bairro, oferecendo peças que vestem do tamanho 34 ao 60. 

Aspas

Meu maior sonho hoje é qualificar mulheres da própria Zona Portuária, gerando oportunidade local enquanto amplio o meu negócio.

Gabrielle Ribeiro

Aspas

O desejo de expansão também motivou a participação de Rosana Batista, de 55 anos. Ela abriu recentemente o restaurante Sabor das Louras, no Morro da Providência, após mais de uma década de experiência na produção de alimentos. Para ela, o edital foi a oportunidade de profissionalizar a gestão e traçar estratégias alinhadas aos seus objetivos. 

“O curso ampliou meu repertório e me fez perceber a importância de compreender as necessidades do cliente em cada etapa, para além do atendimento diário”, conta Rosana. “Futuramente, meu plano é conquistar um espaço maior para receber o público com todo o conforto que ele merece”, compartilha.  

O empreendimento de Sérgio Gonçalves, de 53 anos, também está em fase inicial. Morador de São Cristóvão, ele criou um negócio de logística voltado ao transporte de pequenas cargas e materiais na região do Porto Maravilha. A oportunidade surgiu ao observar o dinamismo do território, impulsionado por feiras e eventos culturais que demandam a montagem e desmontagem constante de estruturas temporárias. 

“Os professores deram direcionamentos fundamentais para aplicarmos na prática. No meu caso, o foco é a transportadora. O VOA não só me ajudou a estruturar o negócio, mas também a me destacar no setor. Antes, eu tinha apenas a vontade de fazer; agora, com o conhecimento que desenvolvi no curso, tenho as ferramentas necessárias para expandir”, diz. 

Para a produtora cultural Cleópatra, de 27 anos, moradora do Santo Cristo, a formação superou as expectativas ao conectar visão de mercado e aplicação prática, provocando uma virada na forma como enxerga a própria trajetória profissional. “Antes, eu via meu negócio apenas como uma produtora. Aqui, percebi que meu trabalho vai muito além: posso desenvolver soluções criativas para marcas e empreendimentos de diversos setores”.

A jovem destaca ainda o domínio de novas estratégias para a gestão da comunicação como um divisor de águas. “Meu lado criativo e o executivo já eram organizados, mas a comunicação sempre foi um desafio. Foi gratificante perceber que posso estruturar uma estratégia completa, englobando redes sociais, YouTube e inteligência artificial, com o mesmo rigor que aplico na gestão executiva”, afirma. 

Aspas

Aprender metodologias para consolidar um modelo de negócio sustentável foi muito importante. Ter uma estrutura clara da minha empresa sempre foi um grande objetivo.

Cleópatra

Aspas

Apresentar novas narrativas e valorizar a memória do território é a missão do walking tour idealizado por Fred Abrunhosa, de 52 anos. Ele atua com turismo de base comunitária no Morro do Pinto, conduzindo visitantes e novos moradores para conhecer de perto a gastronomia local, os pontos culturais e os personagens vivos que constroem a identidade da região. 

A curto prazo, a meta de Fred é inscrever a iniciativa na etapa de aceleração do VOA – Sua vez é agora. Ele conta que a formação lhe trouxe mais bagagem e confiança para estruturar a proposta da próxima fase. 

“Quando fui escrever o pré-projeto com base em tudo o que aprendemos, percebi a dimensão do impacto do curso. A metodologia facilitou muito a nossa vida na hora de colocar as ideias no papel, mostrando o passo a passo para o negócio funcionar na prática, sobretudo no planejamento para alcançar nossos clientes e compreender a fundo o perfil do nosso público”, relata Fred. 

A afirmação da identidade negra e a geração de renda caminham juntas na trajetória do projeto Axé Odarà, idealizado para resgatar a memória e promover a autonomia de mulheres no Centro do Rio. A iniciativa, que começou com ações assistenciais direcionadas a pessoas em situação de rua, passou por uma virada ao focar no fortalecimento das moradoras da região. 

“Percebi um apagamento muito grande da história e das raízes dessas mulheres. O projeto funcionava apenas de forma pontual e não tinha como se manter sozinho. Foi no VOA que compreendi como estruturar o negócio para que ele ganhasse alcance, visibilidade e fomento”, conta a fundadora Maria Aparecida Salerno, de 54 anos. 

Já a grande inovação impulsionada pelo edital foi a ressignificação das bonecas Abayomi, feitas tradicionalmente de retalhos de tecidos e nós, transformando-as em amuletos exclusivos que combinam resgate histórico, ervas secas e cristais. 

“Trazer essa produção é uma forma de honrar o afeto e a resistência das mulheres negras, além de desmistificar o preconceito e o racismo religioso que historicamente tentam demonizar nossas tradições. Cada nó dado pelas mulheres do projeto carrega uma intenção: saúde, prosperidade, amor e sorte”, explica

Aspas

Ao unir a tradição das Abayomis às ervas e aos cristais, criamos algo único, que gera valor econômico para as artesãs e devolve a essas mulheres o protagonismo de suas histórias.

Maria Aparecida Salerno

Aspas

Morador do Caju, Daniel Alves, de 45 anos, trabalha atualmente no setor de mobilidade urbana. A convivência com o ritmo acelerado e o estresse da rotina das grandes cidades o motivou a buscar novos caminhos, desenvolvendo uma solução prática: uma estrutura portátil e desmontável que permite armar uma rede em menos de dois minutos. 

“A minha proposta é oferecer moldes práticos para que qualquer pessoa possa descansar onde quiser, com agilidade e sem complicação”, explica. 

Aspas

O edital surgiu quando eu mais precisava, porque já estava desanimando. O curso abriu meus horizontes para planejar a longo prazo.

Daniel Alves

Aspas

Para ele, o grande divisor de águas foi compreender o conceito e a aplicação da economia criativa. “Foi o aprendizado que mais me motivou. Entendi que o meu projeto não é isolado: ao crescer, posso gerar renda para o meu amigo, para o meu vizinho e fortalecer toda a rede ao meu redor. Recebi os direcionamentos que faltavam e, agora, meu maior sonho é tirar essa ideia do papel”, conclui Daniel. 

A consolidação do trabalho comunitário e a busca pela formalização institucional marcam a trajetória de Ingrid Nascimento, de 26 anos. Há mais de uma década, ela lidera o projeto Sonhando Juntos, no Morro da Providência, atuando no desenvolvimento infantil, na garantia de direitos e no suporte direto às famílias da região. 

“Estar no VOA tem sido uma oportunidade decisiva para fortalecer nossa comunicação e atrair novos parceiros e investimentos. A experiência é extremamente enriquecedora, pois valoriza a troca entre o empreendedorismo local e o terceiro setor, mostrando a força das pessoas da própria comunidade, afirma. 

Apesar dos mais de dez anos de atuação, o projeto vive agora o desafio da estruturação jurídica. “Ainda tínhamos dúvidas sobre a parte burocrática e organizacional. Conviver com tantas pessoas engajadas me deu um gás novo. Nosso principal objetivo hoje é formalizar o projeto e obter o CNPJ. Foi o impulso que precisávamos para continuar potencializando nossa atuação na Providência”, resume. 

Aspas

Toda essa troca me fez perceber que metas que pareciam distantes são perfeitamente possíveis.

Ingrid Nascimento

Aspas

A partir dos relatos precisos que demonstram a capacidade empreendedora de tantas pessoas que vivem na Zona Portuária do Rio, podemos afirmar, com certeza, que no último sábado, dia 25 de julho de 2026, todos entenderam que agora, com o VOA, chegou a vez de cada um deles.