A idade do futuro
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Notas de Montevidéu sobre demografia, educação e o mundo mais idoso que já chegou a América Latina
Há números que demoram para encontrar seu lugar na nossa cabeça.
Em 1950, a idade mediana da população da América Latina e do Caribe era de aproximadamente 18 anos. Em 2024, chegou a 31. Em 2050, deverá ultrapassar os 40 anos.
Não é apenas uma mudança de números. É outra sociedade chegando.
Na manhã desta quarta-feira, 19 de agosto, aqui em Montevidéu, José Manuel Salazar-Xirinachs, Secretário-Executivo da CEPAL, e Simone Cecchini, Diretor do Centro Latino-Americano e Caribenho de Demografia (CELADE), apresentaram o estudo Impactos del cambio demográfico en América Latina y el Caribe: retos y opciones para la política pública, preparado pela CEPAL para esta VI Conferência Regional sobre População e Desenvolvimento (CEPAL, 2026). A programação oficial identifica o estudo como o documento central desta Conferência.
Tenho pensado que estes meus últimos dias em Montevidéu formam uma conversa só, embora tenham sido organizados em momentos diferentes e com grupos diferentes.
Na segunda-feira, dia 17, participei do Primeiro Fórum Regional do Setor Privado, que antecedeu o início da conferência e que incluiu organizações membro da rede Latimpacto. Ali, uma expressão foi muitas vezes utilizada: inteligência demográfica. Como transformar aquilo que sabemos sobre as mudanças da população em decisões melhores sobre investimento, trabalho, produtos, serviços e desenvolvimento?
A Conferência oficial começou no dia seguinte. E hoje a pergunta ficou maior.
Não se trata somente de saber onde investir.
Trata-se de perguntar que políticas, instituições e direitos serão necessários para uma sociedade cuja população será muito diferente daquela para a qual construímos boa parte dos nossos sistemas atuais. O próprio Fórum do dia 17 foi concebido como atividade preparatória destinada a aproximar liderança empresarial, investimento de impacto e colaboração público-privada na implementação do Consenso de Montevidéu.
A mudança é rápida.
Em 2024, três de cada quatro países ou territórios da América Latina e do Caribe já apresentavam fecundidade abaixo do nível de reposição. Ao mesmo tempo, nossa região ainda tem a segunda maior taxa de fecundidade adolescente do mundo: cerca de 50 nascimentos para cada mil adolescentes entre 15 e 19 anos (CEPAL, 2026).
Esse contraste merece atenção.
Temos menos filhos, mas as meninas pobres continuam engravidando muito mais do que as meninas ricas. E nem sempre por sua própria escolha.
Em alguns países apresentados pela CEPAL, a diferença entre os extremos de renda entre essas jovens grávidas passa de duas vezes. No Uruguai, a fecundidade adolescente entre as jovens de maior renda aproxima-se de zero (CEPAL, 2026).
A média melhora. A desigualdade permanece.
Talvez aí esteja uma das primeiras lições da inteligência demográfica: não basta saber o que está acontecendo com a população; precisamos saber com quem está acontecendo.
Raça, renda, gênero, território e deficiência não são cortes adicionais que fazemos depois de olhar os números. São parte da própria explicação.
Isso conversa muito com questões que vêm ocupando a Fundação Roberto Marinho nos últimos anos.
Quando pesquisamos as juventudes que não concluíram a educação básica, também descobrimos rapidamente que não existe uma juventude abstrata. Existem jovens com oportunidades muito diferentes para estudar, trabalhar, circular, cuidar, constituir família e imaginar o futuro.
A transição demográfica torna isso ainda mais importante.
A CEPAL calcula que hoje cerca de 15% da população latino-americana e caribenha tem 60 anos ou mais. Em 2050 serão aproximadamente 25%. Ao final do século poderão chegar perto de 38% (CEPAL, 2026).
Vivemos mais. Essa é uma conquista. Mas viver mais nos obriga a reorganizar quase tudo: saúde, previdência, cidades, moradia, trabalho, cuidado — e também educação.
Durante muito tempo, pensamos a educação como uma instituição concentrada no começo da vida. A criança entra, o jovem estuda, depois começa a trabalhar.
A vida nunca foi exatamente assim. E será cada vez menos.
As pessoas estudarão, trabalharão, cuidarão de alguém, mudarão de profissão, precisarão aprender uma nova tecnologia, poderão sair e voltar ao mercado de trabalho. Viverão mais e terão diante delas trajetórias menos lineares.
Por isso me chamou especialmente a atenção um dado apresentado hoje.
Até 2050, a mudança da estrutura etária deverá reduzir em algo próximo a 38 milhões de pessoas a demanda populacional relacionada aos sistemas educacionais da região (CEPAL, 2026).
À primeira vista, alguém poderia concluir: precisaremos gastar menos com educação. A CEPAL propõe, e eu endosso, justamente outra direção: com menos pressão quantitativa, abre-se a possibilidade de investir melhor em qualidade, equidade, inclusão e aprendizagem ao longo da vida.
Aí está uma mudança importante.
A pergunta deixa progressivamente de ser quantas crianças conseguimos colocar numa escola e passa também a ser quantas pessoas conseguimos fazer aprender, permanecer, concluir, voltar a estudar e continuar aprendendo.
No Brasil, isso toca numa ferida antiga.
Milhões de jovens e adultos chegaram à vida adulta sem concluir a educação básica. Durante décadas pensamos a Educação de Jovens e Adultos principalmente como reparação de uma dívida educacional.
Ela é isso. Mas talvez seja preciso acrescentar outra dimensão: a EJA é também uma política para o futuro de uma sociedade longeva. Uma sociedade que envelhece não pode se permitir abandonar educacionalmente sua população adulta.
Há outra consequência que me parece igualmente importante.
O chamado bônus demográfico da América Latina e do Caribe deverá terminar, em média, por volta de 2028 (CEPAL, 2026). Haverá proporcionalmente menos pessoas entrando na força de trabalho e mais pessoas vivendo durante muitos anos depois dos 60, 70 ou 80 anos.
Então o crescimento dependerá cada vez mais da qualidade da formação, da produtividade e das oportunidades oferecidas a quem já nasceu. Dito de uma maneira simples: menos jovens significa que não podemos perder jovens.
Não podemos achar normal um adolescente deixar a escola. Não podemos aceitar como inevitável que milhões de jovens cheguem à vida adulta sem educação básica completa. Não podemos tratar gravidez na adolescência, violência, racismo, exclusão escolar e desemprego juvenil como problemas que pertencem a políticas diferentes e pouco conversam entre si.
As instituições organizam políticas em setores. As pessoas vivem trajetórias. Talvez esse seja um dos pensamentos que mais tenho trazido destes dias. A mesma menina pode estar, ao mesmo tempo, estudando, cuidando de um irmão, procurando emprego, vivendo numa área atingida pela violência, tentando acessar um serviço de saúde e construindo uma ideia sobre seu próprio futuro. Nenhuma dessas dimensões explica sozinha sua vida.
Outra transformação importante aparece no cuidado.
À medida que diminui a população infantil e cresce rapidamente a população idosa, muda também quem precisa de cuidado. E continuamos depositando grande parte desse trabalho nas mulheres, muitas vezes de maneira não remunerada, comprometendo sua escolaridade, renda, trabalho e autonomia (CEPAL, 2026).
Por isso a chamada “sociedade do cuidado” apareceu tantas vezes nestes dias. Não se trata apenas de criar serviços para pessoas idosas. Trata-se de reorganizar socialmente uma responsabilidade sem a qual nenhuma sociedade funciona.
E aqui educação, outra vez, aparece.
Quem cuida também precisa poder estudar. Quem envelhece precisa continuar aprendendo. Quem perde uma ocupação aos 50 anos pode precisar adquirir uma nova competência. Quem migra precisa ter seus conhecimentos reconhecidos. Quem ficou para trás precisa ter a possibilidade de voltar.
Talvez por isso eu esteja vendo com outros olhos uma trajetória de quase cinquenta anos da Fundação Roberto Marinho. O Telecurso nasceu quando precisávamos encontrar outros caminhos para pessoas que o sistema educacional não conseguia alcançar. Depois vieram novas metodologias, linguagens, tecnologias, redes e maneiras de aproximar educação, trabalho, cultura e comunicação.
O mundo mudou muito desde então.
Mas a pergunta permanece curiosamente atual: como fazer o direito de aprender alcançar quem os sistemas tradicionais deixam de fora? A inteligência demográfica acrescenta agora uma nova dimensão a essa pergunta.
Conhecer a população não é contar pessoas.
É compreender como elas vivem, envelhecem, estudam, trabalham, migram, cuidam e constroem suas escolhas. É perceber antecipadamente onde novas desigualdades podem surgir. E usar esse conhecimento para decidir antes.
Na segunda-feira passada, o setor privado discutiu como transformar inteligência demográfica em investimento e intervenção social responsável.
Hoje, a CEPAL discutiu como transformá-la em política pública.
Talvez organizações como a Fundação Roberto Marinho tenham justamente um papel interessante entre esses dois espaços: produzir conhecimento, desenvolver soluções, experimentar, avaliar, comunicar e ajudar aquilo que funciona a alcançar mais gente.
Ainda é cedo para dizer todas as consequências dessa discussão. Mas uma coisa parece clara, a população do futuro não é uma abstração esperando 2050 chegar. Grande parte dela já nasceu. Está agora numa escola. Ou fora dela. Está procurando trabalho. Está cuidando de alguém. Está decidindo se terá filhos. Está tentando terminar os estudos. Está envelhecendo.
Talvez inteligência demográfica seja, no fim das contas, também isto: olhar com mais atenção para as pessoas que estão diante de nós e compreender que o futuro já começou a ser construído na trajetória de cada uma delas.
Referências
COMISSÃO ECONÔMICA PARA A AMÉRICA LATINA E O CARIBE — CEPAL. Impactos del cambio demográfico en América Latina y el Caribe: retos y opciones para la política pública. LC/CRPD.6/3. Agosto de 2026.
COMISSÃO ECONÔMICA PARA A AMÉRICA LATINA E O CARIBE — CEPAL. Sexta Reunión de la Conferencia Regional sobre Población y Desarrollo de América Latina y el Caribe. Montevidéu, 18–20 ago. 2026. Programa da sessão de 19 de agosto.
LATIMPACTO. Para conhecer, acesse: https://latimpacto.org/
SALAZAR-XIRINACHS, José Manuel; CECCHINI, Simone. Apresentação de Impactos del cambio demográfico en América Latina y el Caribe: retos y opciones para la política pública. VI Conferência Regional sobre População e Desenvolvimento da América Latina e do Caribe, Montevidéu, 19 ago. 2026. Registro pessoal da apresentação utilizado para este dossiê.
